Introdução
O Processo de Observação do Comportamento e “feedback” deve ser um componente integral de uma abordagem detalhada para identificar e gerenciar os riscos ergonômicos. A observação e a análise sistêmica do comportamento pode complementar as outras técnicas e ferramentas de identificação e análise de riscos. As observações rotineiras do comportamento e de operações específicas realizadas nos locais de trabalho identificam as situações onde as práticas antiergonômicas ocorrem. Conseqüentemente, o processo de observação funciona como uma ferramenta de redução dos riscos através do “feedback” ao funcionário, encorajando-o e reforçando o uso de práticas ergonomicamente comprovadas.
A Abordagem Tradicional para o Gerenciamento dos Riscos Ergonômicos
As abordagens tradicionais para o gerenciamento dos riscos ergonômicos e dos seus subseqüentes quadros de dor incluem estratégias para identificar e reduzir a exposição dos funcionários aos riscos. Um programa de treinamento é conduzido para permitir que os funcionários sejam participantes ativos deste processo. Os programas instrucionais usualmente ensinam aos funcionários a reconhecer e a relatar os quadros de dor ou de fadiga iniciais, relacionados à ergonomia, a entender os fatores de riscos básicos (por exemplo, repetitividade e força) e a usar estratégias simples para prevenir as lesões (por exemplo: postura ao sentar, técnicas apropriadas de levantamento).
Uma análise de riscos do local de trabalho é planejado para identificar os riscos potenciais e os existentes. A análise completa inclui:
- A revisão dos registros de lesões, doenças e quadros de dor para identificar os padrões e tendências indicativas de riscos ergonômicos.
- A aplicação e análise do Questionário Bipolar para uma “pesquisa dos sintomas”, de forma a identificar as situações e estados que atingem diretamente o trabalhador, determinando pró-ativamente os quadros de fadiga e dor.
- A aplicação e a análise da “pesquisa de tarefas / trabalho” para se listar as situações em que as tarefas são realizadas numa duração de tempo e freqüência que sejam preocupantes.
- A auto-avaliação pelos funcionários dos locais de trabalho, o que permite aos funcionários analisar e a ajustar os seus pró-prios postos de trabalho, assim como os de seus colegas.
- Um diagnóstico global dos locais de trabalho realizado por um especialista, incluindo entrevistas com grupos homogêneos de risco ou amostras representativas de trabalhadores, e
- Realização de uma análise detalhada das situações, com alto risco, identificadas nas etapas citadas anteriormente.
Uma vez que os riscos ergonômicos foram identificados e priorizados através de critérios sistêmicos, as ações corretivas podem ser planejadas e implantadas. As estratégias de controle usuais envolvem controles administrativos, equipamentos de proteção individual, medidas de engenharia e práticas de trabalho. Os controles administrativos incluem rodízio de funcionários, alteração dos ciclos de trabalho, enriquecimento de tarefas, etc. As técnicas de controle das práticas de trabalho tradicionais envolvem a alteração dos métodos de trabalho e nos procedimentos operacionais, acompanhadas de treinamentos, específicos em ergonomia, necessários às mudanças realizadas. As medidas de controle de engenharia incluem o projeto ou a modificação de um posto de trabalho, ferramentas e equipamentos utilizados.
Quando os esforços iniciais estão finalizados, um programa de manutenção inclui reciclagens periódicas, re-aplicação do questionário bipolar para a “pesquisa dos sintomas” e no uso de ferramentas para auto-avaliação pelos funcionários. As análises subseqüentes e reajustes nas estações de trabalho, tarefas e atividades são realizadas, se necessário. Complementando o que foi citado até agora, outras medidas podem ser adotadas para garantir que os princípios ergonômicos estão sendo usados na seleção e no projeto de novos equipamentos e estações de trabalho. Além de verificar se as considerações ergonômicas estão sendo incorporadas na identificação e modificação de tarefas às quais vão receber funcionários que estarão retornando ao trabalho.
Enquanto estas técnicas de identificação e redução dos riscos descri-tas aqui são componentes necessários de um programa de ergonomia, eles normalmente são insuficientes. Até as ferramentas com os melhores projetos e as melhores estações de trabalho são freqüentemente mal usadas, intencionalmente ou não, apesar de ótimos treinamentos em ergonomia terem sido realizados. Neste momento, o processo de observação e “feedback” pode ser usado para complementar as técnicas tradicionais, gerando uma abordagem mais profunda na identificação e no controle dos riscos ergonômicos.
Uma Visão Geral do Processo de Observação e “feedback”
O processo de observação e “feedback” é uma ferramenta projetada para ajudar a aumentar a visibilidade e o entendimento dos comportamentos seguros e os de risco. Usando um formulário contendo os comportamentos críticos à segurança dos funcionários de cada organização, departamento e de cada área, os funcionários podem observar periodicamente as práticas de trabalho, mutuamente, enquanto o trabalho é realizado, anotando os comportamentos seguros e os de risco. Após o período de observação, o qual dura aproximadamente 20 minutos, o observador e o funcionário observado conversam sobre os resultados da observação. O observador revisa a sua observação em todos os seus aspectos, usando as técnicas apropriadas de coa-ching, abordando qualquer comportamento de risco que tenha ocorrido.
O observador e o observado informalmente analisam o contexto de trabalho para identificar qualquer barreira que exista e impeça o tra-balho seguro. Possivelmente elas envolvam riscos ambientais, trei-namento inadequado, falhas de comunicação, restrições temporais, equipamentos ou ferramentas com projeto deficiente. Com os resul-tados destas observações, eles aplicam as ferramentas para solução de problemas visando reduzir ou eliminar estas barreiras que permi-tem e/ou encorajam os comportamentos de risco.
Os formulários das observações realizadas são periodicamente lançados no programa de análise de dados e compilados. Os dados compilados são colocados em gráficos e compartilhados com os grupos de funcionários, promovendo uma segunda forma de “feedback” positivo (a primeira é o próprio coaching). Estes gráficos ilustram os pontos fortes e fracos de cada grupo de trabalho e/ou de toda a organização. Os comportamentos de risco que ocorrem freqüentemente e que podem resultar em lesões sérias são estudados em maior detalhe. Times de funcionários analisam a situação de trabalho para identificar qualquer obstáculo, ambiental ou de projeto, em se realizar um comportamento seguro e para desenvolver caminhos para reduzir ou eliminar estas barreiras que freqüentemente permitem e estimulam o comportamento de risco.
Freqüentemente, não há barreiras sistêmicas desencorajando ou prevenindo o comportamento de risco, ou as condições as quais tor-nam o comportamento seguro desconfortável ou inconveniente não podem ser removidas. Nestas situações, o ““feedback”” construtivo realizado pelo próprio funcionário pode ajudar em muito a reduzir as práticas de risco. As pessoas freqüentemente realizam o comportamento de risco sem se perceberem ou terem a intenção; isto ocorre tanto por não entender o comportamento necessário para realizar a tarefa quanto por lapso de atenção ou por estar com “a mente cheia”, o que favorece uma atividade com risco. Nós podemos ser “incompetentes inconscientes” (Geller 1999, 2001). Em tais situações, o ““feedback”” oferece a informação e nos faz mais vigilantes quanto aos riscos a que nos expomos de forma a podermos mudar o nosso comportamento no futuro.
O ““feedback”” também pode ser motivacional, fornecendo o suporte social para encorajar as pessoas a aceitarem a realização das tarefas por mais tempo e com um esforço extra para, para que estejam mais seguros. Algumas vezes as pessoas podem escolher propositalmente o comportamento de risco, já que o mesmo oferece várias vantagens, tais como ser mais fácil, rápido e/ou ser mais conveniente do que a alternativa mais segura. Uma forte ênfase nas reuniões de trabalho aos aspectos de prazos e metas de produção geralmente encorajam os comportamentos de risco, dando a impressão de que muitas outras pessoas adotam estes comportamentos também. Embora a chance de uma lesão existir, ela é percebida como altamente improvável. No momento da tomada de decisão em aceitar um risco aparentemente “menor” parece ser muito razoável. Nestes casos, a observação e o ““feedback”” realizado por um colega de trabalho, fornece um sistema de responsabilização necessário, que encoraja e motiva a pessoa em realizar o trabalho da forma mais segura.
Finalmente, quando o próprio funcionário (observador) oferece o ““feedback”” positivo logo após a ocorrência de um comportamento seguro, esta conseqüência imediata, certa e positiva irá reforçar em muito o comportamento do funcionário observado, fazendo com que ele ocorra novamente. Neste caminho, a “competência consciente” é apoiada e o seu nível aumentado, eventualmente derivando numa segunda natureza, que é a “competência inconsciente”.
Integrando a Observação Comportamental ao Programa de Ergonomia
O processo de observação e “feedback” pode servir a dois propósitos diferentes e críticos ao programa de ergonomia. Primeiro, o processo de observação pode complementar as outras ferramentas de análise de riscos. Tal como está ilustrado no modelo do formulário, um formulário de observação genérica da organização inclui uma ou mais categorias de comportamento relacionadas à ergonomia, tais como “Posição do Corpo”, “Ritmo de Trabalho” e “Manuseio de Materiais”. Este formulário guia os observadores a identificar as ocorrências de comportamento seguro e de risco. Além disso, os formulários para tarefas específicas podem ser elaborados e usados para fornecer um guia mais detalhado ao observador interessado em examinar melhor as práticas ergonômicas da empresa. Um exemplo, também é apresentado a seguir. Devido ao formulário comportamental ser usado numa base freqüente, talvez mais que uma vez por semana por funcionário do time de trabalho, o processo pode ajudar a descobrir situações antiergonômicas, às quais não foram detectadas pela abordagem tradicional, pois ela usualmente não é de uso tão freqüente. Como os dados das observações das áreas e das tarefas ocorrem com maior freqüência e abundância, um ergonomista com conhecimento pode ajudar a um time de trabalho em conduzir uma análise mais de talhada das situações de risco encontradas.

O processo de observação também serve como uma ferramenta para redução dos riscos, pois oferece um “feedback” individual e em grupo encorajando e apoiando o uso de práticas ergonomicamente corretas. Por exemplo, os comportamentos relativos a uma postura correta ao sentar ou necessários ao levantar pesos podem ser realizados intencionalmente de forma errada; ou melhor, as pessoas simplesmente podem falhar em atender a uma postura necessária ao desempenho da tarefa, pois estão recebendo uma demanda de exigência sobre as peças (mãos) e não sobre eles mesmos. Como resultado, mesmo aqueles funcionários que podem recitar a técnica de levantamento de pesos enquanto dormem, são freqüentemente observados não utilizando estas técnicas - conhecer não é sinônimo de usar. Do mesmo modo, os móveis de escritório são freqüentemente mal utilizados por funcionários cansados, os quais se escorregam gradualmente nas cadeiras. Um processo de observação comportamental fornece os meios para ajudar estas pessoas a estarem mais cientes, ou melhor, atentas a estes comportamentos involuntários, de modo que possa trabalhar de forma segura naturalmente, desenvolvendo hábitos saudáveis.
Naturalmente, nem todos os comportamentos antiergonômicos (ou de risco) são involuntários. Às vezes, as pessoas levantam pesos a-cima do limite de forma consciente, usam uma ferramenta de forma imprópria ou trabalham num ritmo que os colocam em risco de adquirir uma lesão. Aqui, o processo de observação pode ajudar a reforçar a necessidade de seguir as práticas ergonômicas definidas como corretas através de um mecanismo sistêmico, onde um funcionário lembra ao outro das práticas seguras.
Treinando os Observadores para Identificar os Riscos Ergonômicos
A potencial de contribuição do processo de observação e “feedback” a um programa de ergonomia mais aprofundado é limitado ao nível de conhecimento dos observadores, isto é, se eles sabem o que estão observando – esta é a diferença entre ver e observar. Um curso básico pode ser eficaz em ensinar aos observadores identificarem as situações de risco mais aparentes. Mas, para preparar os observadores a identificarem de forma mais completa os comportamentos de risco, um treinamento mais detalhado deve ser desenvolvido. Enquanto esta abordagem é evitada pelo fato do ergonomista e/ou dos profissionais do SESMT estarem fazendo as observações, muitos dos benefícios do processo de observação e “feedback” entre os próprios funcionários (por exemplo, uso do potencial da influência social, “feedback” informal entre os funcionários – colegas de trabalho, aumento do nível de en-volvimento e do senso de propriedade) serão perdidos. Uma abordagem de treinamento para aumentar as habilidades em i-dentificar os riscos ergonômicos usando o processo de observação e “feedback” está descrito a seguir.
O programa pode ser desenvolvido ed várias formas, sendo que um caminho consiste de 12 mini-workshops, cada qual dura de 45 a 60 minutos. Um workshop é aplicado por semana. Após a sessão intro-dutória, o curriculum enfoca diferentes temas a cada semana, abor-dando uma variedade de riscos ergonômicos, um de cada vez. O curso contém uma descrição genérica de cada tópico, apoiado por fotografias e vídeos ilustrativos da planta onde trabalham. Os vídeo clipes são usados também para conduzir “observações simuladas” nas quais os participantes observam o funcionário realizando uma tarefa e comparam estes resultados com toda a classe e com o instrutor. Durante a semana seguinte ao workshop, os participantes conduzem observações periódicas nas suas áreas de trabalho, concentrando a sua atenção somente ao assunto do treinamento que recebeu.
Ao final de seis semanas, o conteúdo dos workshops irá mudar e fo-car as diferentes partes do corpo. Por exemplo, na oitava semana aborda-se as “Mãos e Punhos”. Durante esta semana, os participantes irão focar em todos fatores de risco ergonômico, mas com principal atenção nas “Mãos e Pulsos”. Após a décima primeira semana, todo o corpo deve ser observado. Finalmente, em tópicos especiais, abordam-se assuntos, tais como, práticas de levantamento, lançamento de dados no computador, etc, os quais terão as mesmas abordagens já descritas.
Finalizando
O processo de observação e “feedback” pode ser uma adição signifi-cativa às ferramentas tradicionais usadas para gerenciar os riscos ergonômicos. Ele serve como uma ferramenta de identificação e análise, mas ao contrário dos métodos tradicionais, as observações realizadas freqüentemente, pelos próprios funcionários, com “feedback” objetivo, rápido e positivo fazem toda a diferença; pois são aplicados os princípios da psicologia da segurança que potencializam a motivação, envolvimento, educação e um processo que funcione no longo prazo através da abordagem sistêmica e da melhoria contínua.
Por: Eng. Carlos Massera Diretor da M&M Tecnologia Comportamental para HSE&Q
Se quiser trocar idéias, sanar dúvidas sobre o assunto tratado, fique a vontade em entrar em contato com o autor no e-mail acima.
Referências
Geller, E. S. (1999). Behavior-based safety: Confusion, controversy, and clarification. Occupational Health & Safety, 68(1), 40-49. U.S. Department of Labor. (1996). Draft ergonomic protection stan-dard. Washington, DC: USDOL/OSHA.
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